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quarta-feira, 20 de março de 2013

Chocolate Quente

 
O frio era muito intenso naquela noite, o termómetro dentro do táxi indicava que lá fora estavam uns gélidos três graus negativos. Precisava de beber com urgência algo quente, estava muito desconfortável. O que me tinha passado pela cabeça em apanhar o comboio até à cidade mais fria do pais?
 
Nunca gostara de frio e nem conseguira suportá-lo, adoecendo frequentemente no inverno. No entanto, a chama da saudade ardia dentro de mim. O amor levou-me ao frio infernal. O amor era a resposta para tudo, o caminho para a felicidade, o sentido da vida. O amor tinha-me levado ali e eu tinha esperança que me levasse até a ti.
 
Olhei pela janela e observei. A cidade era muito bonita, as luzes iluminavam as ruas, as pessoas cumprimentavam-se com simpatia e afabilidade. Não pareciam ser desconfiadas e nem rudes, como em Lisboa. Ali tudo parecia diferente, sentia-me noutro mundo. Estava maravilhada. O taxista, parecia um guia turístico indicando museus e relatando acontecimentos históricos passados na cidade.
 
─ O que faz por cá? Negócios? Laser, amor…? ─ Perguntou-me o motorista, fitando-me pelo espelho retrovisor.
 
Quando o taxista pronunciou a palavra “amor”, corei súbita e inesperadamente. Seria tão óbvio assim?
 
─ Veio por amor, então? Muito bem.
 
Baixei os olhos e permaneci em silêncio. O embaraço que sentia era evidente… O taxista continuou.
 
─ Sabe, isso é muito bonito, seguir o que o seu coração lhe diz. Existem poucas pessoas românticas actualmente. Hoje em dia, estas pessoas estão bastante mais focadas com o seu trabalho, com a carreira profissional, com o dinheiro, etc. O amor e a família ficam para segundos, ou mesmo para terceiros planos. Já nem ouvem a voz do seu coração. É triste…
 
─ O senhor, é romântico ─ afirmei, tentando que ele se concentrasse na sua vida e não na minha.
 
─ E a menina, não é romântica?
 
─ Sim, penso que sim…
 
Então, ele continuou. Falou do seu casamento, das crises matrimoniais, dos filhos, netos, etc.
 
Eu continuava em silêncio, ouvindo-o. Depois, começou a dar-me conselhos de amor e de como poderia fazer para que o nosso amor resultasse. Era espantoso como aquele homem sem me conhecer, estava a acalmar-me e a dizer o que precisava saber para que conseguíssemos ser felizes e, o mais engraçado era que eu não precisava dizer uma única palavra, ou fazer qualquer tipo de comentário! Ele parecia já saber! Muito interessante mesmo...
 
─ Manter um relacionamento não é fácil, mas olhe, quando existe amor verdadeiro, deve-se lutar. Olhe que merece a pena todos os sacrifícios, todas as lutas, pois só assim se aprende a amar verdadeiramente.
 
Na tentativa de novamente mudar de assunto, perguntei-lhe se conhecia algum local onde se servisse chocolate quente. Precisava aquecer-me com urgência e imediatamente, ele levou-me até lá. Paguei a trajectória e saí para beber o chocolate quentinho, ia saber-me mesmo bem.
 
─ Vá com Deus e boa sorte com esse amor. Lute! ─ Disse o simpático do taxista, parando o táxi mesmo à porta da chocolataria.
 
Agradeci, paguei e saí.
 
Sentada na mesa e depois de servida, saboreava o delicioso chocolate quente. A nossa banda que tocava no palco, instigava-me a procurar-te e seguir com o meu plano inicial que era procurar-te, esclarecer todas as tuas dúvidas e ficarmos juntas, finalmente. A própria vocalista olhava-me fixamente e o seu olhar parecia dizer: “Vá, faz isso! Procura-a, vai tudo correr bem. Confia.” Bebi mais um pouco do chocolate quente e peguei no telemóvel, marcando o teu número e então, começou a tocar a nossa música! Que loucura!
 
Atendeste do outro lado e eu disse:
 
─ Estou… Não desligues, apenas escuta o que está a dar… ─ E apontei o telemóvel para a banda, para ouvires a música «Pink Floyd – Wish You Were Here», ─ “Desejo Ter-te Aqui”.
 
No fim da música cantei um pouco para ti, em jeito de serenata e tu, com voz embargada, disseste em português:
 
─ Meu Deus, como eu desejo ter-te aqui comigo… ─ disseste a chorar com saudades.
 
─ Porque estou aqui, na tua cidade!
 
─ O quê?! Como assim, “estás na minha cidade”?
 
─ Sim, cheguei à pouco no comboio e estou a ligar-te da chocolataria… ─ Disse-te onde estava meio com medo, tinham passado 12 anos desde a última vez que tínhamos estado juntas.
 
Separámo-nos devido aos meus ciúmes e percebendo que estava doente, afastei-me de ti. Não queria fazer-te sofrer. Porém, em todo este tempo nunca te tinha esquecido. Amava-te, sim mas graças à psicoterapia, já não estava obcecada por ti.
 
Combinamos, vires ter comigo até à chocolataria onde eu estava. Disseste que chegavas dali a 15 minutos e eu assenti, dizendo que te esperaria. Estava ansiosa, nervosa e insegura com medo que não viesses. Terias alguém…? Esta pergunta ecoava na minha mente vezes sem conta.
 
O meu medo dissipou-se quando te vi entrar e sentares-te na minha frente. Continuavas linda, mais linda que antes. Abraça-mo-nos longamente. “Que saudades de ti”, disse em pensamento.
 
Conversámos muito, foi até a chocolataria fechar. Falámos de tudo, do nosso trabalho, dos nossos projectos, etc. falámos de ti e de mim. Durante a nossa conversa senti que o nosso amor permanecia vivo, ainda me amavas e eu a ti. A maneira como me olhavas, como as nossas mãos se tocavam era reveladora do amor que existia em nós. Neste tempo todo não tinhas tido ninguém e eu também não.
 
Quiseste saber onde estava hospedada e ofereceste-te para me levar ao hotel. No rádio, passava uma música linda que ainda não conhecia. Era a banda Snow Patrol e a música chamava-se The Lightning Strike, ouvi-a com atenção e subitamente, começaste a cantar a canção. Fiquei muito surpreendida, tu não costumavas cantar. Não te conhecia esse gosto pela música. Olhei-te com admiração e também com amor, sim, pois só quando se ama é que se consegue sentir simultaneamente amor e admiração.
 
A tua mão apertou a minha no elevador quando subirmos para o quarto, era como uma promessa de amor que se adivinhava. Estava ansiosa e nervosa, há muito que sonhava em ter-te nos meus braços. Fazia tanto tempo que receava que aquilo fosse um sonho e que, ao acordar tudo desaparecesse, inclusivamente, tu.
 
No entanto, isso não aconteceu. Ao chegarmos ao quarto, tu fechaste a porta e beijaste-me apaixonadamente. Lágrimas de felicidade, molhavam o meu rosto.
 
─ Estás a chorar, desculpa… ─ Disseste confusa olhando-me.
 
─ Sim, estou mas estou a chorar de felicidade. Doeu demais ficar longe de ti, senti tantas saudades. Para mim tu és tudo, o meu Tudo. Amo-te.
 
Sem mais palavras, abraçaste-me e beijámo-nos num misto de paixão e amor. Esse beijo acendeu a nossa chama interior e fizemos amor apaixonadamente, durante a noite toda. Tornámo-nos numa só. Adormeceste abraçada a mim. Sentia-me feliz, agraciada e antes de adormecer pensei que nunca fora tão feliz, nem nunca me sentira tão amada e segura como me sentia ao teu lado. Seguraste-te em mim como se eu fosse a tua pequena jangada e eu atraquei-me em ti, como se fosses o meu porto-seguro.
 
Após sete anos e já casadas, é novamente inverno e estamos sentadas à beira-mar. Estamos a beber um chocolate quente, está frio e observando o nascer-do-sol juntas, olho nos teus olhos dizendo-te:
 
─ És o meu Tudo.
 
─ E tu és o meu. Amo-te, amor. ─ Dizes apoiando a tua cabeça no meu ombro.
 
Fim
 
 
Cris Henriques

*Nota: Este conto foi criado para o projecto do blog Bloinquês na 9ª Edição Musical. Tema: Quando você se segurou em mim como se eu fosse sua pequena jangada.

13 comentários:

  1. Lindo Cris, é assim mesmo não?
    quando o amor é verdadeiro nem o tempo, nem a distância consegue afastar.
    O que nos afasta do amor é nossa atitude.

    Amiga tenha uma linda noite!

    abraços e carinhos
    My

    ResponderEliminar
  2. Oi Cris, quando se fala de amor se fala de sentimentos intraduzíveis em palavras, conseguimos adornar a flor, mas nunca imitar o seu perfume, assim é o amor sentido, sentimentos intraduzíveis, mas sublimes. Um belo texto, parabéns.

    Ghost e Bindi

    ResponderEliminar
  3. Oi Cris,
    boa noite,
    bela história,
    quando o amor é o protagonista não muito a acrescentar
    há amores que sobrevivem a distância e tempo.
    Adorei!

    deixo aqui o link onde eu baixei as imagens
    http://picfor.me/en/viewimg/9415/tag/2358
    mas agora não funciona.
    funciona, não funciona, funciona, não funciona =(

    beijos e abraços

    ResponderEliminar
  4. Boa tarde poetisa amada!
    Hoje vim parabenizá-la pela sua competência literária, visto que estamos comemorando o "Dia Mundial da Poesia" e você poeta borda com a delicadeza de uma artesã os fios de palavras que nos encantam e emocionam. Parabéns minha querida!
    Beijinhos com sabor de carinho!
    Gracita

    ResponderEliminar
  5. Olá Cris! Como vai você? Parabéns pelo conto! Lindo e romântico... Obrigada pelo carinho e pelo comentário!
    Abraço fraterno e carinhoso!
    Elaine Averbuch Neves
    http://elaine-dedentroprafora.blogspot.com.br/

    ResponderEliminar
  6. Que precioso relato mi querida Cris, un placer pasar a leerte!
    Te dejo un fuerte abrazo, bonita noche!

    ResponderEliminar
  7. Oi amiga querida.
    Lindo conto, amei
    Que delicia estar pertinho de quem se ama e concordo com o que o taxista disse.
    Amiga que delicia te ler novamente, realmente estava com saudades.
    Uma belíssima sexta feira.
    O meu carinho. Beijos

    ResponderEliminar
  8. Cris que lindo o final foi maravilhosos, parabéns!!!

    ResponderEliminar
  9. Lindo conto,Cris! Beleza de participação! Adorei te ver lá! beijos,chica

    ResponderEliminar
  10. Que romântico!!! Adoro romance, reencontros, paixões....
    Adorei, menina!

    Beijos

    ResponderEliminar
  11. Acabei de ler como um suspiroooo, aaaai ai... muito bom, adoro textos que me fazem suspirar, rss

    bjoos
    Um abraço carinhoso

    Paty Alves
    Ágape Amor Verdadeiro
    Patyiva
    Vou Conseguir

    ResponderEliminar
  12. Adorei seu estilo de escrita, muito bom!

    Vi seu comentário no meu blog, obrigada. Mas o texto que ganhou a ed. visual do blq's foi esse:
    http://guriamagricela.blogspot.com.br/2013/03/as-duas-torres.html

    Colocaram o link errado, espero que goste!
    Beijos!

    ResponderEliminar
  13. Olá, Cris.
    Belo conto; que bom seria se cada pessoa pudesse encontrar sua cara metade e viver com ela pelo resto de seus dias.
    Abraço.

    ResponderEliminar

Olá!

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